Terça-feira, 28 Maio, 2024
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CÁ DA TERRA: O regresso às aulas

Por admin-sn
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Osvaldo Gêmo

osvaldoroque7103@gmail.com

OS estudantes regressam sempre nos finais de Janeiro, princípios de Fevereiro, e a cidade rejuvenesce, timidamente; o comércio fica mais animado e algumas ruas e locais ganham vida.

Lembro-me perfeitamente como se fosse ontem, quando me foram deixar ali na antiga Escola Primária da Av. Guerra Popular. Parece ouvir a professora Luísa dizer está entregue, como se de uma encomenda se tratasse, quando o meu progenitor me deixou à porta da sala. Ora a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola.

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A porta da sala ficava logo à esquerda, ao cimo de alguns degraus, para quem entrava da parte frontal do edifício azul, que mais tarde seria devolvido à comunidade hindu.

As casas de banho ao fundo à direita, com vaso de cerâmica branca onde as necessidades eram feitas de pé ou de cócoras. Nos dias seguintes não precisei ser entregue, pois a distância entre a Casa Fabião, ali no Alto-Maé, e a escola era relativamente curta e a legião dos miúdos de bata branca, com sacola à tira-colo era grande e tinha prioridade para atravessar as estradas que eram relativamente pouco movimentadas.

A professora Luísa, cabelos desfrisados, mandava-nos fazer deveres todos os dias. Ao intervalo ainda dava tempo de jogarmos o pião, o esconde-esconde, a coboiada, ou aos berlindes.

Já em casa o exercício era mesmo fazer as cópias, para não ter contas a ajustar com a professora Luísa que exigia a caligrafia bem cuidada nos pequenos cadernos caqui, com folhas brancas e linhas azuis.

Estávamos em 1977. Na Av. Guerra Popular fiz a pré e a primeira classe. No ano seguinte, mudei-me com a minha bata branca para a primária Eduardo Mondlane. Foi aqui onde fiz a quarta classe, com a professora Inês.  Tal e qual fazia para chegar a Av. Guerra Popular, a Eduardo Mondlane também estava a pequena distância à pé.

Calhou fazer a quinta e sexta classe, mais ou menos no mesmo eixo, na Secundária  Estrela Vermelha. Sentíamo-nos orgulhosos por estudar no secundário, naquela escola de rés-do-chão ao terceiro piso.

Tudo era novo para nós: amplos espaços, gente desconhecida, diferentes professores para diferentes disciplinas. O professor Guivala era um incentivo a dobrar.

Foi aqui que dei os primeiros passos básquete com o Hélio. Aventuramos também para piscina que estava vedada para aprendizes, por razões de segurança. Estávamos já quase homenzinhos e o ambiente ajudou a nos moldar. Recordo-me de fazerem troça dos calções azuis e camisa da cor do céu que trajávamos na primária (A Mukulwana) e agora no secundário (Ximbehe) mas não desanimámos.

Durante a minha instrução primária e secundária, não me recordo de alguma vez os meus pais serem convocados para qualquer tipo de reunião com os professores. Éramos exemplares ou no mínimo fazíamos esforço para o ser. Transitar de classe era sempre a meta, daí a plena dedicação.

Hoje não são raras as situações em que o  professor perdeu a autoridade perante os alunos que não veem um sinal de esperança no final do percurso escolar.

São os mesmos que confundem liberdade com libertinagem, a coberto de alguns pais que, estranhamente, entendem que os filhos só têm direitos e não têm deveres.

Não tem havido colaboração entre a escola e a família na função maior de educar no presente para garantir um futuro harmonioso e civilizado, em que todos tem direitos, mas também deveres.

Mas nesse tempo, ser estudante era sinónimo de mobilidade social e de emprego quase garantido, como prémio de um empenho aturado durante sete ou nove anos.

Dolorosamente, há muita desmotivação, há quem caminhe sem o norte,  para um caminho sem futuro.

A cidade está a transfigurar-se. Desejamos, que este número avantajado de alunos traga consigo uma dinâmica de colaboração,  harmonia, foco e determinação e que no futuro seja o esteio do emprego e desenvolvimento sustentado.

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