Quarta-feira, 29 Maio, 2024
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CÁ DA TERRA: O boato mata

Por Osvaldo Gemo
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osvaldoroque7103@gmail.com    

Há quem ainda se recorde do célebre Xiconhoca, o inimigo do povo, associado à campanhas contra os malefícios que grassam a sociedade, sobretudo na era do monopartidarismo.

Na verdade, Xiconhoca era o vilão, o inimigo do povo que devia ser combatido, nas suas mais diversificadas facetas.

E uma destas facetas referia-se ao facto do Xiconhoca ser um boateiro, perito em espalhar boatos e, com isso, investia contra a criação do Homem novo, apregoado no pós-independência.

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Pelo que parece, o projecto da criação do Homem novo foi muito mal entendido, porque lavrou num período e contexto político‑ideológico específico, ficando descontinuado com os ventos que sopram do Norte, por se entender que não se adequa com os valores democráticos.

O mesmo aconteceu com a figura do Xiconhoca que até foi combatida e até enterrada.Não havia jornal de parede, comuns na época,que não retratasse este personagem a tal jeito que podia se apagar tudo, mas a figura do Xiconhoca era preservada.

Com eventuais ajustes num e noutro aspecto, o projecto de construção do Homem novo continua actual, tal e qual o resgate do Xiconhoca, parece também um imperativo, a avaliar pelos males que enfermam a nossa sociedade.

O alcoolismo, o boato, a corrupção, o tabagismo, o consumo das drogas,o analfabetismo,a opressão,as uniões prematuras, o abuso sexual, a violência doméstica,a poligamia, entre outros, são males que Xiconhoca combatia e que ainda hoje continuamos a queixarmo-nos deles.

Diriam outros que o Xiconhoca está ultrapassado, não faz parte do nosso tempo. Que estou enfermado de um saudosismo extremado.

O facto é que os ventos que sopram do Norte trataram de apagar muitas boas coisas que vinham daquele tempo, incluindo a banda desenhada de cariz educativo, como era o Xiconhoca -o inimigo do povo, a tal ponto que uma tentativa de resgate soa desconexada, destrutiva, devastadora, física, emocional e mentalmente, porque alegadamente, não integra o pluralismo de posições e a diversidade sócio-cultural.

Por outro lado, ignorar os sinais e as implicações negativas dos nossos actos no contexto da construção da cidadania, soa à traição à pátria que nos viu nascer.

Livre de mim discutir os xiconhocas e muito menos o projecto de construção do Homem novo. Tal empreitada significaria fazer uma introspecção sobre os projectos políticos contemporâneos.

Tão somente me move o crescente impacto que o boato tem na construção do fluxo rotineiro da comunicação, ao atropelar relações previsíveis e instaurar a insegurança e a ausência de certezas.
Os territórios nos quais o boato age e tende a produzir consequências, tendem a expandir-se. A mais recente das consequências ainda está fresca, com a morte de 98 pessoas, na Ilha de Moçambique, que alegadamente fugiam da cólera.
Conforme Jean-Noël Kapferer , um boato pode surgir de mal entendidos, de interpretações distorcidas, cuja origem nunca é determinada pois a sua constituição é colectiva e difusa, na medida em que “cresce e corre com contribuições individuais que se diluem nas narrativas subsequentes, mas que “lubrificam” o canal de passagem”.

Por isso, ainda que localizados eventuais mentores, dificilmente se conseguirá identificar, sem grande margem de equívoco, este ou aquele indivíduo, este ou aquele grupo como mentores do boato.

Infelizmente,no nosso contexto, a eclosão e propagação da cólera, têm sido, amiúde, acompanhado por propagação de boatos sobre a sua origem, ataques a indefesos, queima de habitações e destruição de bens públicos.

A morte de 98 pessoas na Ilha de Moçambique pontifica como o mais grave incidente associado à propagação de boatos, o que demonstra a gravidade das suas consequências.

No nosso quotidiano, recebemos e transmitimos uma vasta lista de boatos, nem sempre inofensivos, mas profundamente intencionais, com objectivos e determinados fins.

Os boatos também são frequentemente utilizados como estratégia política, para ridicularizar ou hostilizar pessoas, sendo que muitos surgem como consequência de frustrações, medo, ou urdidos por profissionais , aproveitando-se de situações de emergência para cultivar animosidades, gozando da liberdade que a democracia confere, com interesses inconfessáveis.

O assunto nos parece de actualidade num contexto de mudanças. Aliás, em qualquer contexto o boato não merece fé, é vergonhoso e insensato difundi-lo. A pessoa que o faz é má, perigosa e inimiga do povo.

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