AMAVÉL PINTO
PROMOVER cultura está na moda. Fazer cultura tornou-se uma espécie de profissão para indivíduos que, em muitos casos, têm como principal objectivo a promoção dos seus próprios egos. Porém, de cultura, ou melhor, de património cultural, que seria o termo mais correcto quando falamos da identidade de um povo, pouco ou nada parecem conhecer.
Obviamente, teríamos muito por onde discutir, abrir livros, consultar estudiosos, conceitos e paradigmas, mas não é por aí que se pretende ir. Interessa compreender como continuamos, depois de cinquenta anos de independência, a confundir promoção cultural com promoção de indivíduos escolhidos pelo sistema.
Em muitos países, principalmente africanos, os verdadeiros promotores do património cultural foram precisamente aqueles que conseguiram distanciar-se do oportunismo criado pelos sistemas de governação.
Insistimos em apresentar ao ilustre estrangeiro aquilo que determinados círculos de influência decidiram que deve representar o país. Convenhamos, não é um espectáculo de jazz, um músico bem vestido ou um indivíduo que fala correctamente uma língua europeia que determina a riqueza cultural de uma nação.
Durante cinquenta anos, fomos assistindo à promoção de figuras que parecem depender mais das amizades com quem ocupa determinadas cadeiras do que propriamente do seu contributo para o património cultural moçambicano.
E assim vamos transformando a nossa identidade numa caricatura, tentando encaixá-la num protótipo internacional de cultura.
Não chega ter um diplomazito e apresentar-se orgulhosamente como etnomusicólogo para se tornar defensor do património cultural africano neste caso moçambicano. Aliás, quando se pretende compreender uma sociedade através de modelos importados, ignorando aqueles que diariamente vivem, praticam e transmitem as suas tradições, estamos possivelmente a fazer tudo menos preservar cultura.
Jazz, Hip-Hop, Rap, R’n’B, Blues, Rock e tantos outros estilos musicais têm raízes profundamente ligadas à história africana. Porém, isso não significa que devemos transformar essas expressões nos únicos instrumentos de representação cultural do nosso país.
Não podemos continuar a usar lóbis, amizades e influências para impor ao público determinados artistas e estilos musicais, enquanto os verdadeiros criadores permanecem esquecidos.
É particularmente lamentável quando indivíduos pertencentes a determinados círculos privilegiados se apresentam como grandes defensores da cultura nacional, confundindo os seus interesses pessoais com os interesses de toda uma sociedade.
É preciso ir mais fundo. Deixar que a própria sociedade participe na definição dos seus representantes culturais. Levar os festivais, nas suas várias vertentes, mais a sério e acabar com determinadas palhaçadas que apenas servem para alimentar vaidades.
Quando Moçambique deixar de ser guiado por padrinhos, amigos, companheiros e colegas de escola, talvez possamos começar a construir uma política cultural digna desse nome.
O património cultural não pode continuar dependente do camarada chefe, nem das notinhas que alguém decide gastar para promover o amigo ou o filho do amigo.
Vamos ser sérios.
Moçambique já tem cinquenta anos. Já não é nenhuma criança. Não podemos continuar a responsabilizar o exterior pelas catanadas culturais que nós próprios damos ao país.
O problema não está necessariamente no estrangeiro que recebe aquilo que lhe apresentamos, mas em quem insiste em transformar a cultura nacional numa oportunidade de promoção pessoal.
É tempo de abandonar os egos, as primeiras-donas e os pequenos donos da cultura.
A cultura moçambicana merece respeito. E esse respeito começa por reconhecer quem verdadeiramente trabalha pelo seu património cultural, sem precisar de padrinhos, favores ou cadeiras no sistema.
O Património cultural pertence ao povo, não aos oportunistas que aprenderam a viver à sua custa.
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