Domingo, 26 Maio, 2024
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APONTAMENTO: A tirania das quatro rodas

Por Issa Likwembe
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Júlio Manjate

CENA típica: uma criança e um adulto, que rolavam ruidosa e imprudentemente sobre as famigeradas motos de quatro rodas, acabaram num acidente fatal em plena noite de 30 de Dezembro, numas das estreitas ruelas da Ponta do Ouro.
Não faço ideia de quem sejam aqueles dois entes, mas de uma coisa estou certo: por estas alturas, há famílias em prantos, chorando aquelas mortes que, até prova em contrário, eram perfeitamente evitáveis.
Todos os anos a história repete-se: gente ida de vários pontos do país e da vizinha África do Sul, junta-se na Ponta do Ouro em nome do turismo, um turismo que exacerba em momentos festivos como os do Natal, fim-de-ano, Páscoa e aqueles feriados e tolerâncias de ponto que se prestam a pontes nas jornadas de trabalho.
Cada um faz de tudo um pouco para parecer diferente e melhor que os outros. Viaturas de cilindrada diversificada, novas ou cansadas, próprias ou alugadas por dinheiros próprios ou emprestados de amigos, familiares ou até agiotas.
O certo é que a Ponta do Ouro fica infestada de viaturas que, a cada ano, são conduzidas com cada vez menos prudência, tal é a arrogância dos que se sentam, estilosos, ao seu volante. No último longo final de semana, por sinal o da passagem de ano, a coisa não foi diferente, ou se calhar até foi pior…
Os agentes da PRM destacados às dezenas para regular o trânsito e tentar disciplinar o trânsito não foram suficientes para tanto caos. Até parecia que aqueles condutores todos tinham deixado os seus cérebros na geleira antes de sair à rua, tais eram os sinais de irracionalidade e irresponsabilidade que era dada a assistir.
Mas o principal mote destas linhas é a contínua indisciplina levada às ruas por condutores das motos de quatro rodas a que me referi acima, muitas delas conduzidas por crianças que ainda mal se movimentam pelos próprios pés!
São às dezenas os menores com idades a partir dos oito/nove anos que, na sua lógica de crianças, aceleram despreocupadamente aquelas potentes máquinas, serpenteando as ruelas, sem qualquer equipamento básico de protecção, complicando o trânsito, perigando sua vida e a de muitas outras pessoas de bem que, francamente, mereciam melhor sorte.
Curioso mesmo é que toda aquela indisciplina acontece aos olhos da Polícia que, ao que tudo indica, faz tempo que atirou a toalha ao chão.
Numa dessas idas à Ponta do Ouro, e quando ainda pensava que aquele era um assunto fácil de resolver, cheguei a abordar o comandante da esquadra local, tentando encorajá-lo a cumprir o seu papel perante tanto caos. Na resposta, ele contou-me sobre o vexame que passou diante de um par de garotos de quem tinha mandado recolher a moto e chamar os pais. Contou-me que, ainda mal se tinha lavrado o registo do caso quando recebeu uma chamada “de alguém lá de cima” ordenando que libertasse imediatamente a moto e as irreverentes crianças, sob pena de ser sancionado.
Cabisbaixo, contou-me que outra alternativa não teve que não cumprir as ordens injustas e ilegais “lá de cima”.
Depois disso, e sobretudo depois das ordens reiteradas, nunca mais se viu ou ouviu falar de um agente da PRM tentando chamar aqueles garotos à razão. O resultado é aquela vergonha a que se assiste.
São várias as questões que não querem calar: que educação estamos a dar àquelas crianças que, desde cedo, aprendem que podem fazer tudo o que lhes apetecer, e que estão acima da Lei? Que sociedade estamos a tentar construir com ordens que, tendencialmente, se sobrepõem à moral colectiva?
Quem são os pais daquelas crianças que aceleram irresponsavelmente motos de quatro rodas nas ruas da Ponta do Ouro? Quando aquelas crianças acidentam e morrem ou matam (bato na madeira…) esses pais têm coragem de chorar? Choram porquê?
E porque ainda penso que se pode fazer alguma coisa para acabar com aquele triste desfile de irresponsabilidades, peço encarecidamente que alguém dê ordens moralmente aceitáveis para devolver civismo à Ponta do Ouro, em respeito a todos que ainda acreditam que procuram sossego naquela zona, e que por isso não deviam ser vítimas de tida aquela desordem.
Acredito que, como eu, há muitos a rezar para que esse dia chegue, para que valha a pena continuar a associar a Ponta do Ouro ao turismo, e não à arruaça que infelizmente somos tentados a fazer.
Um feliz ano para todos nós.

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