Domingo, 21 Abril, 2024
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CÁ DA TERRA: Uma seca anunciada

Por admin
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Osvaldo Gêmo

É sempre difícil viver no quase inferno. Estes últimos dias foram bem férteis em episódios que me fazem recordar a minha última crónica em que falava de Chingodzi, que aos 42 graus de temperatura mais se parecia uma sucursal do inferno.

Referia-me aos episódios de calor de mais de 35 graus em dias seguidos, sem folga, como se as pessoas estivessem numa torradeira. Agora já não é Chingodzi, são Maputo, Xai-Xai, Inhambane, Quelimane, etc.

Maputo esteve ontem a derreter com a previsão a apontar qualquer coisa como 39 graus. Não há agricultura que resista a este cenário, sobretudo com a predominância que nós conhecemos do sequeiro.

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Uma volta à Boane, Namaacha ou a Moamba permite ter já uma imagem da tal seca anunciada e que nós não dimensionamos o que seria.

Os últimos dias surpreenderam a todos. A previsão do tempo avisou, é verdade, mas incrédulos preferimos crer mesmo. Está a ficar claro que os tempos são outros e o aquecimento global não está a poupar, com alguns graus celsius acrescidos a cada ano.

É ruim morrer à fome, algo que muitos produtores vão experimentar. Agora o assunto tem mesmo que ser a seca. 

As secas não são um flagelo repentino. Em algumas áreas são tão regulares quanto as estações, com a diferença de que apenas se repetem com intervalos de anos, quando o chamado El Nino se pronuncia.

A actual seca incide sobre o corredor de vulnerabilidade agro-ecológica que coincide com as zonas mais deprimidas, áridas e miseráveis, que não têm infra-estrutura de irrigação nem de armazenagem de água.

A seca arrasou a agricultura de subsistência fazendo prever que a escassez de alimentos piore ainda mais quando as pequenas reservas se esgotarem, pois as chances dos pequenos agricultores terem o que colher são diminutas e os recursos disponíveis são insuficientes para enfrentar a crise que atinge especialmente crianças e mulheres grávidas.

A segunda safra que deve começar a ser lançada talvez esteja também ameaçada, trazendo a perspectiva de uma crise mais prolongada. Esperamos bem que não cheguem relatos de verdadeiras tragédias em toda a região Sul, a mais afectada.

Há relatos de que muitas famílias já estão a adoptar estratégias de sobrevivência, como é o caso da redução das refeições diárias, sendo que ainda não é realidade as que comem dia sim, dia não.

Há que adoptar políticas que ataquem de frente os problemas endémicos do sector agrícola.

O impacto socioeconómico desta seca sobre as populações pode ser muito menor se a região possuísse meios adequados de prevenção, inclusive protecção e distribuição eficiente de recursos hídricos, conservação do solo, gestão de informações hidrometeorológicas, de stocks e armazenagem de cereais e alimentos, além de acesso a mecanismos financeiros de emergência para superar momentos de crise.

Impõe-se, por isso, uma solução de continuidade para encontrar soluções duradouras que não passem tão somente pela dependência de chuvas.

Mas deixa chover um pouco. Deixa que esta pobre gente se embale de novo na esperança de colheita, que deixemos de clamar pelas colheitas em risco e, imediatamente, voltará tudo ao abandono e ao esquecimento, até que chegue nova seca e a opinião se emocione e espere a autoridade que tome uma atitude.

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