Quarta-feira, 29 Maio, 2024
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TENSÃO NO MÉDIO ORIENTE: Futuros confrontos Israel-Irão serão directos

Por Issa Likwembe
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REDACÇÃO INTERNACIONAL, COM AGÊNCIA LUSA

A RIVALIDADE entre Israel e Irão evoluiu de confrontos envolvendo terceiros para enfrentamentos directos, como o ataque iraniano do passado fim-de-semana, enquadrando a forma da aguardada resposta israelita, afirmaram analistas de assuntos internacionais.

“A decisão do Governo iraniano de responder ao ataque israelita ao complexo diplomático (iraniano) na Síria (a 1 de Abril), que é tecnicamente solo iraniano e protegido pela Convenção de Viena, com um ataque directo a Israel, marca uma escalada e um afastamento da guerra paralela que tem estado em curso entre os dois Estados há mais de uma década”, sublinhou Ramona Moubarak, chefe de Risco País do Banco Global dos Estados do Médio Oriente e do Norte de África (MENA), num webinar sobre as tensões no Médio Oriente organizado pela BMI.

Para a analista, os mais de 300 ‘drones’, mísseis balísticos e de cruzeiro que foram lançados em direcção a Israel, a maioria deles do Irão e com a participação de grupos apoiados por Teerão no Líbano, Iraque, Iémen e Síria, representa uma “clarificação” dos países e grupos que são membros do Eixo da Resistência.

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“O Irão intensificou a retórica e tentou aproveitar a ameaça de um ataque directo para pressionar um cessar-fogo em Gaza. Isso teria permitido reivindicá-lo como uma vitória e evitar retaliações. Mas, quando isso falhou, e quando os países ocidentais se recusaram a condenar o próprio ataque israelita ao consulado iraniano, Teerão teve de cumprir a ameaça e planeou uma retaliação que cumpriu três objectivos: mostrar capacidades militares, posicionar-se como parceiro confiável e comprometer a doutrina de dissuasão de Israel”, sustentou.

Para Moubarak, o Irão “calibrou” o ataque para mostrar força, mas com danos físicos limitados, podendo dizer-se que ou foi de forma intencional ou apenas sorte.

Para a analista, a activação do Eixo de Resistência desde 7 de Outubro e agora a retaliação directa iraniana sobre Israel “mostrou a extensão das capacidades militares do Irão”, desenhando-se agora uma posição “bem mais clara” da capacidade de Teerão.

O ataque iraniano, prosseguiu Moubarak, mostrou também que há “uma aliança de segurança” contra Teerão a emergir na região, que provavelmente irá evoluir e fortalecer-se ao longo dos próximos anos, especialmente porque a guerra entre Israel e o Hamas levantou as capacidades e os riscos decorrentes do Irão e da sua rede na região.

RISCO DE CRISE INTERNA

Para a analista, o ataque iraniano põe em risco a doutrina de dissuasão de Israel, que moldou o equilíbrio de poder durante décadas, apesar de Telavive se mostrar “mais vigoroso e enérgico ao lidar com ameaças à segurança, usando alguma força desproporcional na maioria dos casos para a estabelecer”.

Por seu lado, Samer Talhouk, analista sénior na mesma instituição, observou o “risco elevado” das tensões internas dentro do próprio Irão, equiparando-as às que podem aumentar ainda mais no caso de o Irão enfrentar consequências económicas significativas pelo envolvimento numa altercação mais ampla com Israel.

“Olhando para o quadro mais amplo, estas tensões surgem num momento de elevado risco geopolítico em toda a região MENA, e isto torna as próximas semanas e meses ainda mais importantes para determinar como estes eventos evoluirão a partir daqui e moldar o futuro da região”, sustentou.

Para o analista, em relação à questão como irá Israel responder ao ataque do Irão, há várias opções: Israel nada fará, por enquanto, embora possa responder no futuro, ou ataques cirúrgicos a representantes iranianos dentro e fora do Irão.

“Os riscos de uma escalada continuam elevados e dependem também do desenvolvimento da guerra em Gaza e das tensões com o Irão, e também da determinação de Israel ou da extensão da sua determinação em proteger a sua fronteira norte. Isto também surge num contexto de elevadas tensões internas no Líbano, especialmente após o assassínio de um membro anti-Hezbollah do partido cristão de extrema-direita das forças libanesas”, concluiu Talhouk.

CONFLITO ABERTO

Ambos países preferem evitar um conflito aberto, mas este poderá ser inevitável em caso de resposta dura de Telavive ao ataque directo iraniano.

Para Ray Takeyh, especialista do Council on Foreign Relations (CFR, um ‘think tank’ com sede em Washington, “o ataque poderá desencadear novos enfrentamentos entre os dois lados e levantar o risco mais grave de conflito regional”.

“Nenhum dos lados quer este conflito, mas cabe a eles decidir. E é difícil ver como podem diminuir esta escalada. Provavelmente Israel retaliará. A sua postura de dissuasão exige uma resposta a tal ataque no seu território, mesmo que não haja vítimas. E então o Irão tem de responder”, acrescentou, num comentário à crise entre os dois países.

O analista e historiador Max Boot, apesar de admitir a possibilidade retaliação, defende que será melhor para Telavive concentrar-se em acabar a guerra na Faixa de Gaza em vez de a estender ao Irão, apesar de as emoções dos dois lados estarem ao rubro.

Num artigo no The Washington Post, Boot salientou que o Irão já manifestou o desejo de desanuviar a situação e que cabe agora a Benjamin Netanyahu decidir o que fazer.

“Cabe ao gabinete de guerra de Israel decidir se vai ripostar contra o Irão. A pressão para reagir teria sido muito maior se o ataque iraniano tivesse provocado baixas em massa. Isso não aconteceu, diminuindo a pressão sobre Netanyahu para que faça algo precipitado”, opina o colunista, que considera que a ofensiva iraniana “foi uma derrota para o Irão”.

DIFÍCIL DERROTAR O IRÃO

“Deu a entender que as forças armadas de Israel são suficientemente fortes para defender o país contra o Irão e reduziu o isolamento internacional de Telavive após mais de seis meses de guerra brutal em Gaza. Mesmo as nações que têm apelado a implementar um cessar-fogo e diminuir o sofrimento dos civis puseram-se ao seu lado no sábado”, sublinhou Boot.

Para o colunista, se assim o quisesse, Netanyahu poderia considerar a troca de ataques como uma vitória para Israel – “bem como para o seu governo em apuros” – ou poderia usá-lo “como uma desculpa perfeita para bombardear o programa nuclear do Irão ou outras instalações militares” iranianas.

Israel teria toda a justificação moral e legal para ordenar ataques aéreos ao Irão. Mas não seria inteligente do ponto de vista estratégico. O Irão é uma nação de 88,5 milhões de pessoas, enquanto Israel de apenas 9,5 milhões. Teerão tem mais de meio milhão de militares no activo, uma indústria de defesa sofisticada e uma vasta rede de poderosos representantes em toda a região. “Israel pode ferí-lo, mas não pode derrotá-lo – nem mesmo destruir o seu programa nuclear bem escondido e bem fortificado. Nem sequer tem bombardeiros pesados, como os B-52, capazes de transportar as maiores munições destruidoras de ‘bunkers’”, argumentou o colunista.

Para Boot, mesmo os Estados Unidos teriam dificuldade em derrotar o Irão, pelo que a administração Biden não deseja, “com razão”, ser arrastada para uma guerra com a república islâmica, “que provavelmente levaria a um aumento dos preços do petróleo e a uma recessão económica global”.

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