Segunda-feira, 22 Julho, 2024
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CÁ DA TERRA: Que desperdício!

Por admin-sn
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ERA o fim de terça-feira. Depois de um dia extenuante, finalmente cheguei à casa, ávido por um banho refrescante e do merecido descanso. Nessa noite nem dei caso do convite que me fizeram para o jantar, tal era o cansaço, e tinha apanhado muito com o calor abrasador, próprio do Verão.

Na verdade queria aproveitar a cama ao máximo, então de nada valia esperar pelo jantar, que nem sempre chega à hora da merecida digestão. Tudo tem o seu tempo. O jantar também. Abdicar do mesmo deveria ser a melhor opção.

Contrariamente a outros dias, o tráfego lá fora era bem calmo, longe daqueles longos e prolongados engarrafamentos. É sempre assim quando a Meteorologia anuncia chuva. Todos tendemos a correr para a toca, quanto mais cedo melhor, não vai a chuva tecer das suas.

Quando o telefone toca estava eu já no terceiro sono. Olho para as horas era pouco depois das 21.00. Não me recordo do que balbuciei com o meu interlocutor, voltara a apanhar sono enquanto falava.

Entretanto, no meio da noite tive um daqueles pesadelos. A casa estava a afundar e desesperadamente me debatia para salvar a minha prole, debalde. Os meus pés e as minhas mãos pareciam amarradas com pesadas correntes que me arrastavam para o fundo escuro, turvo, de alcatrão. Eu suava frio, me debatia e gritava em vão, que a voz não saía da boca.

Duas, três, quatro sacudidelas da minha parceira acabei acordando. Sentado na cama, aos poucos fui identificando as coisas. O estômago roncava, era fome. São coisas que acontecem a quem como eu, desacustumado, tenta dormir sem comer. Os pesadelos não faltam, a barriga é que comanda quando o cérebro descansa. Será?

Tentei assomar a janela. Chovia a cântaros, chuva ininterrupta. Lá fora as torrentes de água mais pareciam um rio preto, tingido de sangue, era o barro vermelho da terra que neste instante formava uma mistura turva.

O clarão da luz da rua dava para perceber que aquele turbilhão arrastava um pouco de tudo: lixo, pedras, garrafas e muita terra, dando a sensação de que algures a erosão abria uma mina qualquer.

Nas noites limpas é em torno do candeeiro de luz que se reúnem todos os garotos da zona e em dia de chuva vira assombração. Logo aos primeiros sinais todos se disperçam.

Senti um puxão e um sussurro da minha esposa, que me convidava a voltar a cama. Como haveria de dormir no meio daquele turbilhão? Ademais, o estômago requeria um tratamento urgente. De repente um apagão. É sempre assim quando chove, não há energia, e depois não há água, porque todo o sistema funciona com electricidade. Fiquei de colocar um tanque de água no sótão, mas ainda não passou de projecto. Do salário não há dinheiro que sobre para mais esta despesa.

No escuro, tentei alcançar o telefone que havia deixado na mesinha de cabeceira para ver o caminho até à cozinha. Desisti. Tinha me esquecido que não poderia ligar o micro-ondas. Limitei-me a enganar o estômago com uma fruta qualquer.

Neste ano de canícula a gente pedia a Deus misericórdia, implorando por chuva. Por causa desta chuva sem fim já estávamos a implorar que parasse.

Na rua as árvores e as casas estão todas molhadas e com  a  cor do escuro. Só o clarão do relâmpago é que permite identificar, de quando em quando, a cor da casa do Mandlate, do Tobias, do Sertório, que certamente há muito se apartaram da esquina dos copos.

Essa chuva longa e farta parece ganhar mais intensidade e o dia mais escuro. Fiquei a olhar a chuva sem pensar em nada.

O que mais me irrita quando há chuva é a quantidade de desperdício. A água segue calmamente o seu rumo. Ninguém a pára e finalmente se embrulha com o mar.

Amanhã ou depois fará sol e arrumaremos um jeito de levar a nossa vida avante. Saber como enfrentar desafios não é fácil. É muito mais tranquilo se esconder debaixo das paredes protectoras das nossas casas. A chuva rega as plantas, alimenta os rios, oxigena a vida, e permite que o mundo, todos os dias, se transforme! Um exemplo que temos dificuldade de abraçar para evitar o desperdício.

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