Terça-feira, 23 Julho, 2024
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BELAS MEMÓRIAS: O destino

Por Anabela Massingue
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“NINGUÉM foge ao seu destino”, diz um velho provérbio popular. Já houve quem tentou esquivar-se consciente ou inconscientemente, mas na verdade quando se trata de algo já destinado todas as possibilidades tornam-se impossíveis. As possíveis vias de escape bloqueiam-se.

Com a crise económica da década de 1980 no país, a apetência dos mais jovens era partir em busca do melhor. Embora houvesse diversas alternativas, duas eram quase certeza: África do Sul e a ex-República Democrática Alemã (RDA), onde a força laboral moçambicana era bastante procurada para galvanizar as indústrias destes países.

Os jovens entregavam-se sem receio porque internamente a coisa estava mesmo preta, como se diz. O verbo que mais conjugavam era “Abrir”, sinónimo de deixar a terra, a família, os estudos e rumo a realidades desconhecidas.

Uns “abriam” para mais perto, legal ou ilegalmente. Com um pouco de sorte chegava-se ao destino e virava-se o quadro. Paralelamente estavam os que “abriam” para sempre, pois jamais voltaram a ser vistos e muito menos se teve pistas sobre o seu paradeiro ou mesmo sobre o seu fim.

Para a ex-RDA também foram muitos, entre os quais o Tony, um jovem que tinha ainda muito a receber de seus pais para poder dar, em retribuição, mais tarde. Mas pelo aperto da vida, nasceu-lhe o espírito de aventura.

Fez a inscrição à revelia dos pais, que mesmo diante das privações o seu sonho era ter um filho estudado que pudesse usar a inteligência para virar o cenário contribuindo para o seu país, nunca aquele que entregaria a sua força física em terras estranhas. Seu pai sonhava ter na família um professor, enfermeiro ou escriturário. Por isso desencorajava a aventura.

Ouviu o pai e o espírito de aventura abrandou ligeiramente. Contudo, isso foi sol de pouca dura porque quando seus vizinhos iniciaram o movimento de inscrições, a ideia adormecida despertou. Novamente à revelia inscreveu-se, viajou até ao ponto de partida mas lá nem água vinha, nem água ia. O tempo das aulas se aproximava e entre perder as duas coisas, decidiu regressar à procedência para retomar as aulas, o que o seu pai sempre quis. Os mais persistentes permaneceram à espera de melhores dias e conseguiram rumar para o velho continente.

Porque realmente do destino não se foge, um ano depois Tony foi à capital do país por outras razões. Parecia ter vencido o espírito aventureiro que o perseguia: debalde. Depois de ver, no Círculo do bairro da Polana-Cimento, actual Distrito Municipal Ka Mpfumo uma multidão, maioritariamente constituída por jovens de ambos os sexos, se aproximou e inscreveu-se, foi seleccionado e assim se juntou aos outros.

Poucos anos depois, a reunificação das duas Alemanhas e todos os caminhos indicavam para o regresso à casa com o encerramento de muitas firmas. Não restava mais nada que embalar tudo e regressar. Nesse processo, porque estava traçado o Tony foi sobrando.

Procurou oportunidades possíveis para se reenquadrar e voltar à casa com as melhores condições já criadas.

No lugar veio o casamento, em terras estranhas, sem testemunho de nenhum membro da sua família que era a razão da sua aventura. Vieram filhas e netos e o Tony não mais voltou à terra onde o seu regresso foi sempre esperado, porque tudo estava assim traçado.

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